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Entrevista da Drª Fernanda Costa ao Portuguese Times Versão para impressão Enviar por E-mail

Drª Fernanda Costa “No sentido de certificarmos os cursos existentes nas escolas comunitárias, temos a intenção de negociar memorandos de entendimento com as direções escolares” — Fernanda Costa, coordenadora do ensino de português nos EUA Fernanda Costa, assumiu a coordenação do ensino de português nos EUA, após um longo período, votado ao abandono. Mas um abandono, que não abrandou o entusiasmo em ensinar e em aprender.. Se bem que o ensino comunitário, continue a ser de extrema importância de forma a manter a nossa identidade, a integração do português no ensino americano é uma realidade que traz grandes beneficios. 

 

Em entrevista concedida ao Portuguese Times,no dia 20 de Abril de 2011, Fernanda Costa fala-nos do que se feito em prol do ensino do português nos EUA.

 

Fotos e entrevista de Augusto Pessoa

 

PT - Quais os progressos que tem havido no ensino do português, desde que assumiu a coordenação?


FC - “Esta coordenação tem desenvolvido os maiores esforços desde Novembro de 2009, ultrapassando largamente o que foi feito durante as coordenações anteriores. De facto, em 2009 conseguimos, depois de alguns anos de inatividade, restabelecer o Memorando de Entendimento com o Departamento de Educação do Estado de Massachusetts, no âmbito desse memorando foi nomeado um
consultor (hoje adjunto desta coordenação). Estabelecemos nesse mesmo ano outro Memorando de Entendimento com Newark PublicSchools, estabelecemos um Protocolo com a UMass de Boston e nesse âmbito foi criado mais um leitorado, recrutamos um leitor, pago pelo Instituto Camões e abrimos o primeiro Centro de Língua e Cultura Portuguesa, do Instituto Camões, nessa universidade. 


Em 2010, estabelecemos outro Protocolo de Cooperação com o Boston College e nesse âmbito, a leitora que foi colocada na UMass de Boston leciona ali cursos de português. Nesse mesmo ano, realizou-se o I Ciclo de Ações de Formação de professores na costa leste dos EUA, nomeadamente, em Cambridge (MA), Hudson (MA), Boston (MA), New Bedford (MA), Providence (RI), Bridgeport (CT), Newark (NJ), Mount Vernon (NY). Na realização destas ações tivemos o apoio pedagógico de alguns formadores externos e locais. Aproveitando sinergias existentes no terreno, foi propositadamente organizado um plano de ações que tirou o máximo proveito da experiência das nossas leitoras (UMass Boston (MA) e Rutgers (NJ)) e puderam beneficiar um total de 143 professores de língua portuguesa. Convidamos também formadores dos departamentos de estudos portugueses de algumas universidades, que gostaria de referir, o Rhode Island College (RI) e a UMAss, Dartmouth (MA).

 

Foi aprovada pela primeira vez na história do ensino português nos EUA, a primeira rede formal de leitores, do Instituto Camões, que até à data exerciam apenas funções docentes dentro das universidades, com as quais tínhamos estabelecido protocolos de cooperação. A partir da criação dessa rede formal, esses leitores passaram a exercer também, cumulativamente, as funções de docentes de apoio pedagógico aos professores de português do ensino básico e secundário, das escolas comunitárias e públicas. Desde 2010, ano em que o Instituto Camões assumiu a responsabilidade do ensino português no estrangeiro, desde o pré-escolar ao ensino superior, teve a preocupação de ter no terreno, docentes de apoio pedagógico, para acompanhamento da formação contínua dos professores de português, operando a dois níveis distintos. Por um lado as escolas comunitárias e por outro dando formação também aos professores de português que lecionam nas escolas públicas. Em 2011 estabelecemos outro protocolo de cooperação com a Universidade de Ohio.

 

Iniciamos negociações com vista ao estabelecimento de outro protocolo com a NortheasternUniversity, Boston (MA). Apraz-me informar a comunidade que no âmbito deste ultimo protocolo de cooperação, está a ser organizado um intercâmbio cultural, de um grupo de 35 alunos do ensino superior, representando sete nacionalidades, que irão a Portugal, entre outras atividades e visitas de estudo irão frequentar um curso de português para estrangeiros, promovido pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, e simultaneamente, participarão na integração do quotidiano português, vivendo a nossa cultura, nas suas formas mais genuinas, através da nossa gastronomia, dos nossos museus, dos nossos monumentos históricos, ou seja da nossa história e da nossa cultura. Em fevereiro deste ano iniciamos um curso de português na United Nations International School (UNIS), em Nova Iorque. Em março participamos no 35º Congresso de Educação e Cultura, que se realizou na Califórnia, promovido pela Luso AmericanFoundation. No âmbito do II Ciclo de Ações de Formação de Professores, realizou-se uma ação de formação sobre o tema “motivação para a leitura e escrita”, dinamizada pela escritora portuguesa, Alice Vieira e destinada a professores e alunos das escolas comunitárias e públicas.

 

Esta ação decorreu de 5 a 12 de abril, em Cambridge (MA), Boston (MA), New Bedford (MA), Fall River (MA), Providence (RI), Newark (NJ). o próximo mês de maio e integradas no II Ciclo de Ações de Formação estão previstas ações de formação sobre o novo Acordo Ortográfico e elaboração de materiais didáticos, a serem realizadas em Newark (NJ) e Bridgeport (CT). Felizmente e contrariamente ao que algumas pessoas afirmam, esta coordenação tem desenvolvido e executado muitas atividades, ações de formação, tem participado em congressos e em reuniões importantes no contexto da discussão das línguas estrangeiras e seus programas. Neste contexto a coordenação tem recebido grande aceitação e apoio por parte das comunidades portuguesas, das autoridades e instituições americanas, dos líderes comunitários e diversos membros dos Governos Estaduais e locais e das instituições académicas dos EUA”.

 

PT - Qual o interesse das escolas comunitárias no contexto do ensino da língua portuguesa?


FC – “Qualquer escola comunitária tem interesse pois vem cimentar o tecido social da comunidade através de instituições criadas e geridas pela sociedade civil visando resolver os seus próprios problemas. No presente contexto, o ensino da língua portuguesa verifica sobretudo para as camadas mais jovens do ensino pré-escolar e básico, onde a aprendizagem é mais fácil e, por ventura, mais duradoura. Contudo, muitas dessas escolas estão a funcionar em regime paralelo, aos sábados e vêm criar um importante esforço adicional, quer aos encarregados de educação, quer aos próprios alunos”.

 

PT - Tem havido aceitação por parte dos diversos comités escolares das escolas americanas para a integração do ensino?


FC – “A integração do português no currículo das escolas americanas tem vindo a ser gradualmente aceite devido a uma cada vez maior procura por parte de muitos pais e encarregados de educação. Esta procura é de facto uma nota positiva na promoção da língua portuguesa”.

 

PT - Tem-se notado aumento de alunos a nível do ensino integrado?


FC - “Sim. Considerando o que acima referi, o número de alunos de LP decresceu nas escolas comunitárias epor outro lado, aumentou nas escolas púbicas, onde o ensino do Português é integrado”.

 

PT - Colocada na embaixada de Portugal em Washington suponho ter adjuntos em outros locais dos EUA. Quem são e quais as suas funções?


FC – “A nova estratégia do ensino do português nos EUA pressupôs que a coordenação ficasse sediada junto da Embaixada de Portugal em Washington DC, a semelhança das coordenações dos Estados membros e dada a grande dimensão geográfica do pais e numa abordagem de proximidade existissem adjuntos que em articulação permanente com a coordenação, assegurassem o apoio e acompanhamento das comunidades escolares dispersas pelas diferentes áreas consulares, onde a comunidade portuguesa esta representada em maior numero. Na costa leste foi colocado João Caixinha, que tem exercido funções de consultor, no âmbito do Memorando de Entendimento com o Departamento de Educação do Estado de Massachusetts e na costa oeste, António Oliveira, que tem exercido funções docentes nas escolas comunitárias, foi Vice-Presidente da Associação dos Professores de Português dos EUA e Canadá”.

 

PT - Quais são as queixas mais pertinentes apresentadas pelos professores e quais as respostas que lhe tem dado?


FC – “Essa pergunta é pertinente, mas a resposta deve ser entendida a vários níveis. De facto, uma das queixas mais frequentes refere-se à necessidade de frequentarem ações de formação, expressa por muitos professores, que sentem que não têm bagagem pedagógica suficiente para exercerem cabalmente as suas funções docentes, sobretudo aqueles que não têm profissionalização ou habilitação própria. A outro nível verifica-se a queixa referente à ausência de materiais pedagógicos de produção recente (designadamente na implementação do Acordo Ortográfico e de manuais didáticos). Outra queixa refere-se por exemplo às situação de licença sem vencimento, em que se encontram vários professores. Relativamente a estas e a outras queixas a Coordenação tem vindo a prestar todo o apoio possível”.

 

PT - Na sua forma de ver o ensino comunitário continua a ser importante?


FC – “Sim, continua a ser bastante importante. Esta nova estrutura da coordenação veio permitir fazer uma abordagem de proximidade maior. Essa certificação implica a integração dos professores na nossa rede escolar, onde a formação dos professores, quer presencial, quer a distância, seja concretizada. Vamos garantir um acompanhamento maior e asseguraremos um apoio contínuo na elaboração de materiais didáticos e facilitaremos a aquisição de acervos bibliográficos. A integração dos professores na nossa rede escolar, pressupõe que os mesmos manifestem interesse e disponibilidade para serem apoiados e acompanhados na sua formação e no sentido da certificação, a avaliação dos cursos, dos alunos e dos professores será uma realidade. Todas as formas de ensino são importantes, mas cada abordagem merece uma ponderação cuidadosa inerente à permanente dinâmica socioeconómica e cultural das nossas comunidades. Assim, todas as formas de ensino devem ser também discutidas, analisadas e apoiadas de forma participativa com as comunidades, para valorizar a presença da língua portuguesa nos Estados onde existe uma maior presença de comunidades portuguesas. Neste contexto, deverão ser sempre acarinhadas as iniciativas comunitárias, mas deverá ser acautelada a formação dos jovens de forma a poderem dar continuidade ao estudo da língua nas universidades locais e assim poderem adquirir o conhecimento académico da nossa língua, uma mais-valia importante para uma realização profissional”.

 

PT - Acredita no interesse da aprendizagem do português por parte dos jovens de segunda e terceira geração?


FC – “Obviamente que sim. Contudo, como em todas as outras diásporas, a língua portuguesa apenas sobrevivera se esta for falada em casa com os familiares, mas sobretudo, amada através do prazer da leitura de livros infantis, escritos em português, de música cantada em português, de programas televisivos falados em português, de férias passadas junto de familiares e amigos, onde o português seja a língua mais falada... e isto tudo, desde a mais tenra idade. A miscigenação das etnias das nacionalidades e das culturas é uma resultante do mundo global em que vivemos e onde existe sempre uma língua
predominante (que no caso dos EUA é o inglês). Compete-nos, como pais, encarregados de educação e educadores, zelar e promover uma língua com mais de 800 anos e falada em todo o mundo”.

 

PT - Dizia-nos que estava esperançada em que tudo iria mudar. Já conseguiu introduzir algumas mudanças? Quais e os seus resultados?


FC – “Quando há mais de um ano afirmei isso, estava a referir-me que as mudanças então previstas iriam criar sinergias no ensino do Português através da integração dos três níveis de ensino numa só tutela – que éo Instituto Camões – como já aconteceu. A criação de uma estrutura diferente, mais abrangente, mais próxima das comunidades, mais proativa, aproveitando um maior número de recursos humanos, veio beneficiar um maior número de alunos, que atualmente totalizam mais de 50.000, o que representa cerca de 3% da nossa diáspora.  Esta realidade e que deve balizar as nossas ações, os nossos programas e o investimento pedido ao contribuinte português, mas sempre perfeitamente consciente da importância do retorno económico, social e politico que se possa vir obter. Neste sentido, devemos saber manter-nos lúcidos e pragmáticos quanto aos fundos a disponibilizar pelo Estado Português, para quaisquer “grandes investimentos no que diz respeito ao ensino da língua portuguesa” e/ou no “repensar da formação de professores”, bem como na elaboração de “materiais didáticos”, pois como todos sabemos, Portugal atravessa um momento particularmente difícil e que é fácil ser-se demagogo exigindo aquilo que não podemos dar, como algumas pessoas, menos bem preparadas, têm vindo sistematicamente a sugerir, sem qualquer noção da nossa realidade”.

 

PT - A coordenação do ensino já esteve sediada em Providence, Boston, com passagem e regresso a Washington. Porquê Washinghton, quando a maioria da comunidade se encontra radicada em Rhode Island e Massachusetts?

 

FC – “A estratégia da promoção da língua portuguesa nos EUA passa também pela negociação de protocolos e memorandos de entendimento estabelecidos com as autoridades americanas que tem fortes lobbies na capital federal, Washington DC. Por outro lado, existe também a preocupação de articular essa mesma estratégia com os parceiros da CPLP, designadamente no âmbito do Plano de Brasília. Neste contexto, impunha-se que a coordenação ficasse localizada junto da nossa Embaixada em Washington para lhe dar maior visibilidade e mais fácil acesso as iniciativas culturais e outras dos Estados Membros da União Europeia, da CPLP e da Mercosur, onde o Brasil constitui uma economia de referência. Na sequência da implementação dessa estratégia e procurando racionalizar recursos, a antiga coordenação da costa oeste foi substituída por um adjunto da atual coordenação, respondendo por toda a área consular de San Francisco (CA), existindo outro adjunto em Boston, responsável pela costa leste. A Coordenação do Ensino Português nos EUA, cobre também as áreas do sul dos EU, cuja população lusófona tem vindo, igualmente, a aumentar”.

 

PT - Quais as maiores dificuldades que tem encontrado no desempenho das suas funções?


FC – “Como sabe, a coordenação dos EUA esteve durante 3 anos sem
coordenadora. Em 2009, no âmbito da política externa para a língua portuguesa, a nova estratégia do Governo centrou os três níveis de ensino no Instituto Camões e introduziu uma nova estrutura da coordenação, alterando a estrutura bicéfala, que existia.Alem disso, nos últimos anos, Portugal tem atravessado momentos difíceis, que inviabilizaram um orçamento adequado aos esforços pretendidos por todos aqueles que estão direta ou indiretamente envolvidos na expansão da promoção e do ensino da língua portuguesa nos EUA. Contudo, perante a imensa tarefa que compete às pessoas que integram esta nova coordenação (CEPE-EUA), o importante é serrar fileiras e vestir a camisola, não havendo lugar para azedumes nem queixas. Impõe-se referir que o que está em jogo é a grandeza da língua portuguesa e todos nós somos poucos para alcançar objetivos viáveis e sustentáveis”.

 
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